Entendendo a palavra de Deus

 

Todos os cristãos têm o direito e o dever não só de aprender a respeito da herança da fé ensinada pela Igreja, mas também de interpretar as Escrituras por si mesmos. A Igreja de Roma, durante certa época, proibiu essa prática, alegando que os indivíduos facilmente interpretariam  mal as Escrituras. A Confissão de Westminster  concorda que, nas Escrituras, “não são todas as coisas igualmente claras em si, nem do mesmo modo evidentes a todos”, mas afirma também claramente a autoridade dos crentes individualmente de lêem a Bíblia por si mesmos... “não só os doutos, mas ainda os indoutos, no devido uso dos meios ordinários, podem alcançar uma suficiente compreensão delas”. Os “meios ordinários” incluem princípios de interpretação tais como os que seguem:

   A Bíblia é inspirada por Deus, e suas palavras continuam sendo palavras de Deus, mas a Bíblia é também produto de escritores humanos. Compreender isso é essencial. Nenhuma alegoria – ou outro método fantasioso que ignora o sentido original expresso do escritor – será apropriada.

   Cada livro foi escrito, não em código, mas de um modo que pudesse ser entendido pelos leitores a quem foi dirigido. Isso é verdade mesmo a respeito de livros tais como Daniel, Zacarias e Apocalipse, que se valem principalmente de simbolismo;  mas a verdade principal é sempre clara, mesmo que os detalhes sejam nebulosos. Por isso, quando entendemos as palavras usadas, o fundo histórico, as convenções culturais do escritor e de seus leitores, estamos na direção certa para entender os pensamentos comunicados. Porém uma compreensão espiritual – Istoé,o discernimento da realidade de Deus, seu modo de tratar com o seu povo, sua vontade presente e o próprio relacionamento do homem com ele – não chagará a nós, a partir do texto, a menos que o véu seja removido do nosso coração e sejamos capazes de participar da própria paixão que o escritor tem por Deus (2Co 3.16; 1Co 2.14). Devemos orar para que o Espírito de Deus gere em nós essa paixão mostre Deus no texto (Ver Sl 119.18-19,26-27,33-34,12-144, 169; Ef 1.17-19; 16-19).

    Cada livro tomou a sua forma em um tempo específico no processo da revelação da graça de Deus. Esse tempo e lugar devem ser levados em conta quando se interpreta o texto. Os Salmos, por exemplo, apresentam o coração piedoso de qualquer época, mas expressam suas orações e louvores em termos das realidades da vida da graça antes da vinda de Cristo – tal como a lei cerimonial, o sistema sacrificial e o papel especial de Israel como um reino teocrático.

   Cada livro procedeu da mesma mente divina; por isso o ensino dos sessenta e seis livros da Bíblia é complementar e coerente. Se ainda não podemos perceber isso, a falta está em nós e não nas Escrituras. As Escrituras em parte algumas se contradizem; mais do que isso, uma passagem explica outra. Esse sadio princípio de interpretar as Escrituras pelas Escrituras é, às vezes, chamado de analogia das Escrituras ou analogia da fé.

   Cada livro mostra a imutável verdade a respeito de Deus, sobre o mundo e sobre a vontade de Deus para as pessoas, aplicada e ilustrada por situações particulares. O estágio final da interpretação bíblica é a reaplicação de suas verdades ás situações de nossa vida hoje. Este é o modo de discernir aquilo que Deus, nas Escrituras, nos está dizendo neste momento. Exemplo de tais reaplicações são a compreensão por Josias da ira de Deus ante o fracasso de Judá em observar a sua Lei (2Rs 22.8-13), a argumentação de Jesus sobre Gn 2.24 (Mt 19.4-6) e o emprego que Paulo fez de Gn 15.6 e Sl 32.1-2, para mostrar a realidade da presente justificação pela fé (Rm 4.1-8).

   Nenhum significado deve ser atribuído às Escrituras que não possa, com certeza, ser encontrado nela, isto é, que não possa ser mostrado como inequivocamente expresso por um ou mais dos escritores humanos.

   A observação cuidadosa e piedosa dessas regras é um marca de todo cristão que “maneja bem a palavra da verdade” (2Tm 2.15).